Conhecida música tradicional portuguesa, o Fado, tem se tornado constante nos alto-falantes da minha casa, assim como o livro “O Fado” de Teresa Castro d´Arte (Edições Temas da Actualidade, 1996) e “Fado: dança do Brasil, cantar de Lisboa: o fim de um mito” de José Ramos Tinhorão (Caminho, 1994). O primeiro trás entrevistas com diversos fadistas portugueses; já o segundo como o próprio nome diz se apóia na teoria de que a origem do fado seria de sua maior colônia e seria reflexo de um intenso intercâmbio cultural.
O Comunidade Sonora vai hoje querer saber dos próprios músicos sobre a origem do gênero musical mais popular de Portugal e, portanto ficaremos por enquanto longe da famosa tese de Tinhorão, ou quase. A pergunta é simples: Onde, quando e como nasceu o Fado? É... Não é tão simples assim.
Nuno da Câmara Pereira: “o Fado não nasceu. O Fado brota das pessoas, ele vai surgindo à medida que as circunstâncias do dia a dia, e até as circunstancias históricas vão ditando que isso aconteça. Assim como a nossa língua veio do latim, o Fado veio de Portugal com todas as suas nuances; por exemplo, no tempo da conquista de Lisboa aos mouros recebeu nuances que os árabes cá nos deixaram, recebeu nuances dos judeus e, mais tarde, até dos africanos, quando fazíamos escravos e comercializávamos negros para o mundo inteiro”.
Odete Mendes: “sabe que desde criança que eu ouço dizer que o Fado veio do Brasil. Dizem que foram os escravos que o levaram da África para o Brasil e depois veio nas caravelas trazidas pelos marinheiros para a Mouraria. Era cantado por eles e pelas mulheres da prostituição, depois foi cantado pela Severa. Parece que houve uma época em que dançado, mas isso os mais antigos é que contavam, eu não tenho idade para me poder lembrar de nada disso”.
Lino Ramos: “acho que o fado nasceu em Portugal, porque o Fado é português. É a canção tradicional portuguesa e nasceu na Mouraria, onde viveu a grande Severa, onde vive o grande Fernando Maurício, e depois temos outros grandes nomes do Fado, e temos outros sítios do Fado, como Alfama, Bairro Alto”.João Braga: “não sei eu nem ninguém sabe e não arrisco uma opinião para não dizer disparates como alguns que já foram ditos por aí. A última versão sobre essa matéria é de um senhor chamado Ramos Tinhorão, que veio do Brasil para nos dizer que o Fado nasceu lá em 1830, o que é, evidentemente, um disparate. Porque a canção dos portugueses deve ter sido sempre alguma coisa parecida com o Fado e como nós somos um país com oito séculos de história e de existência, graças a Deus, isso significa uma de duas coisas: se é verdade que o Fado nasceu no Brasil, nós éramos todos muito duros de ouvido até os brasileiros nos fazerem o a favor de descobrir o Fado, ou então éramos todos completamente surdos, não cantávamos, não dançávamos, não fazíamos nada dessas coisas. O Sr. Ramos Tinhorão ter-se-á baseado em documentos que leu para dizer que o Fado nasceu no Brasil, mas nós estamos mesmo a ver que isso não faz sentido. O Fado terá ido e terá voltado nas ruas com os marinheiros, mas acho que as cantigas dos portugueses nasceram quando Portugal nasceu”.
Comunidade Sonora – fev./2010 - Fado
01. Nuno da Câmara Pereira - acabou o arraial
02. Odete Mendes - a nossa rua
03. Amália Rodrigues - tudo isto é fado
04. João Braga - naufrágio
05. Nuno da Câmara Pereira - cavalo ruço
06. Odete Mendes - só lágrimas de sonho
07. Amália Rodrigues - Lisboa antiga
08. João Braga - mulher da Mouraria
09. Nuno da Câmara Pereira - a última noite
10. Odete Mendes - coisas que o tempo não leva
11. Amália Rodrigues - nem às paredes confesso
12. João Braga - fado fado
13. Nuno da Câmara Pereira - o fado mora em Lisboa
14. Amália Rodrigues – barco negro
15. Odete Mendes - o mundo que há em mim
16. João Braga - maré vazia
17. Nuno da Câmara Pereira - mar ausente
18. Odete Mendes - acordem as guitarras
19. Amália Rodrigues - amália
20. João Braga - por morrer uma andorinha
Cícero F. Barbosa Jr., mestrando em História pela PUC/SP, bacharelando em Letras pela USP, músico e artista, escreve às quartas-feiras quinzenalmente no ContemporARTES.



















