quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A (polêmica sobre a) origem do Fado


Conhecida música tradicional portuguesa, o Fado, tem se tornado constante nos alto-falantes da minha casa, assim como o livro “O Fado” de Teresa Castro d´Arte (Edições Temas da Actualidade, 1996) e “Fado: dança do Brasil, cantar de Lisboa: o fim de um mito” de José Ramos Tinhorão (Caminho, 1994). O primeiro trás entrevistas com diversos fadistas portugueses; já o segundo como o próprio nome diz se apóia na teoria de que a origem do fado seria de sua maior colônia e seria reflexo de um intenso intercâmbio cultural.


O Comunidade Sonora vai hoje querer saber dos próprios músicos sobre a origem do gênero musical mais popular de Portugal e, portanto ficaremos por enquanto longe da famosa tese de Tinhorão, ou quase. A pergunta é simples: Onde, quando e como nasceu o Fado? É... Não é tão simples assim.


Nuno da Câmara Pereira: “o Fado não nasceu. O Fado brota das pessoas, ele vai surgindo à medida que as circunstâncias do dia a dia, e até as circunstancias históricas vão ditando que isso aconteça. Assim como a nossa língua veio do latim, o Fado veio de Portugal com todas as suas nuances; por exemplo, no tempo da conquista de Lisboa aos mouros recebeu nuances que os árabes cá nos deixaram, recebeu nuances dos judeus e, mais tarde, até dos africanos, quando fazíamos escravos e comercializávamos negros para o mundo inteiro”.

Odete Mendes: “sabe que desde criança que eu ouço dizer que o Fado veio do Brasil. Dizem que foram os escravos que o levaram da África para o Brasil e depois veio nas caravelas trazidas pelos marinheiros para a Mouraria. Era cantado por eles e pelas mulheres da prostituição, depois foi cantado pela Severa. Parece que houve uma época em que dançado, mas isso os mais antigos é que contavam, eu não tenho idade para me poder lembrar de nada disso”.

Lino Ramos: “acho que o fado nasceu em Portugal, porque o Fado é português. É a canção tradicional portuguesa e nasceu na Mouraria, onde viveu a grande Severa, onde vive o grande Fernando Maurício, e depois temos outros grandes nomes do Fado, e temos outros sítios do Fado, como Alfama, Bairro Alto”.

João Braga: “não sei eu nem ninguém sabe e não arrisco uma opinião para não dizer disparates como alguns que já foram ditos por aí. A última versão sobre essa matéria é de um senhor chamado Ramos Tinhorão, que veio do Brasil para nos dizer que o Fado nasceu lá em 1830, o que é, evidentemente, um disparate. Porque a canção dos portugueses deve ter sido sempre alguma coisa parecida com o Fado e como nós somos um país com oito séculos de história e de existência, graças a Deus, isso significa uma de duas coisas: se é verdade que o Fado nasceu no Brasil, nós éramos todos muito duros de ouvido até os brasileiros nos fazerem o a favor de descobrir o Fado, ou então éramos todos completamente surdos, não cantávamos, não dançávamos, não fazíamos nada dessas coisas. O Sr. Ramos Tinhorão ter-se-á baseado em documentos que leu para dizer que o Fado nasceu no Brasil, mas nós estamos mesmo a ver que isso não faz sentido. O Fado terá ido e terá voltado nas ruas com os marinheiros, mas acho que as cantigas dos portugueses nasceram quando Portugal nasceu”.




Comunidade Sonora – fev./2010 - Fado

01.  Nuno da Câmara Pereira - acabou o arraial
02.  Odete Mendes - a nossa rua
03.  Amália Rodrigues - tudo isto é fado
04.  João Braga - naufrágio
05.  Nuno da Câmara Pereira - cavalo ruço
06.  Odete Mendes - só lágrimas de sonho
07.  Amália Rodrigues - Lisboa antiga
08.  João Braga - mulher da Mouraria
09.  Nuno da Câmara Pereira - a última noite
10.  Odete Mendes - coisas que o tempo não leva
11.  Amália Rodrigues - nem às paredes confesso
12.  João Braga - fado fado
13.  Nuno da Câmara Pereira - o fado mora em Lisboa
14.  Amália Rodrigues – barco negro
15.  Odete Mendes - o mundo que há em mim
16.  João Braga - maré vazia
17.  Nuno da Câmara Pereira - mar ausente
18.  Odete Mendes - acordem as guitarras
19.  Amália Rodrigues - amália
20.  João Braga - por morrer uma andorinha






    
   Cícero F. Barbosa Jr., mestrando em História pela PUC/SP, bacharelando em Letras pela USP, músico e artista, escreve às quartas-feiras quinzenalmente no ContemporARTES.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Bar ContemporArtes

Contemporâneos. Relutei muito e, confesso que tentei conciliar meu atual momento pessoal com o trabalho e lazer. Não deu. Agradeço imensamente a colaboração de todos vocês leitores, colaboradores e difusores - meus novos-velhos amigos. Peço que continuem a prestigiar este trabalho de voluntários que esmeram-se em trazer o melhor das artes contemporâneas com responsabilidade, atualizando o blog diariamente. Equipe que doa tempo e talento com alegria e satisfação porque acredita num mundo melhor, num mundo cidadão capaz de salvar e ser salvo pela Educação e Cultura.Obrigada, sempre!


Estarei sem acesso a internet, impossibilitada de responder aos emails. Desculpe-me e obrigada!


PERGUNTE AO PÓ


A doença do tio-avô foi como aviso de casa abandonada. Sinais de pequenos reparos que quando ignorados se transformam em danos irreversíveis, até só restar como solução a demolição, reduzi-la a pó. Foi assim com ele, que estava à beira da morte e conseguira o direito de se despedir com calma e privacidade de todos os familiares, inclusive da pequena Jussara, de 10 anos, filha de sua irmã caçula.

Ele próprio caminhava para o pó.

E, pela primeira vez a menina encarou seu futuro, ao fitar aquele selo usado, guardado sabe-se lá porquê.Talvez viesse de uma carta de amor, ela pensou, talvez de uma notícia importante ou mesmo trágica. A única pista era o carimbo que mostrava que havia sido enviada da Inglaterra. A carta, no entanto, ela nunca encontraria.

O tio, ainda mais branco do que os lençóis que o abraçavam, conseguiu com muito esforço libertar seus olhos das manchas de bolor no teto. Ele as admirava como se fossem obra de Michelângelo, como se estivesse diante do teto de sua capela sistina particular. Era como se mantinha lúcido, já que as flores de plástico desbotadas que decoravam a capelinha de santos, num canto do quarto, anunciavam o fim. A decomposição. O pó.

Direcionou a voz e a mão trêmulas na direção da sobrinha-neta:

_ Menina, aqui está um futuro promissor. Pega este selo e guarda num lugar onde seja fácil de você olhar para ele. Eu quero que você olhe-o sempre que puder. Mas, só na sua maioridade é que você encontrará a resposta.

Ela não viu sentido naquilo, mas como não se nega o pedido de um moribundo, o obedeceu pelos anos que se seguiram e até se acostumou a olhar o selo.

_Meus parabéns senhorita. Vinte e um anos, linda idade. Pode seguir por aquele corredor. Obrigado pela preferência – disse a mulher bem maquiada e com sorriso enorme no rosto.

Jussara então abre a carteira e retira o único presente de seu tio-avô, já quase reduzido a pó. Pronto a misturar-se ao passado. Abre um sorriso, beija-o e diz a si própria em voz baixinha:

_ Eita tio, velho danado. Você sabia...

O som dos auto falantes encobre sua voz miúda:

- Última chamada para o vôo 717 para Londres. Dirijam-se ao portão seis e boa viagem!

Ao decolar, o avião levantou poeira que sumiu rapidamente no céu.
Rosana Banharoli

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Segundas Poéticas

Contemporâneos. Relutei muito e, confesso que tentei conciliar meu atual momento pessoal com o trabalho e lazer. Não deu. Agradeço imensamente a colaboração de todos vocês leitores, colaboradores e difusores - meus novos-velhos amigos. Peço que continuem a prestigiar este trabalho de voluntários que esmeram-se em trazer o melhor das artes contemporâneas com responsabilidade, atualizando o blog diariamente. Equipe que doa tempo e talento com alegria e satisfação porque acredita num mundo melhor, num mundo cidadão capaz de salvar e ser salvo pela Educação e Cultura.Obrigada, sempre!


Estarei sem acesso a internet, impossibilitada de responder aos emails. Desculpe-me e obrigada!

Pesadelo


Naquela noite de partida

Chorei

Gozo de despedida

Choro de futuro em preto e branco

Resultado de pacto de sangue

Feito branco no preto.

Tantos anos,

E, ainda, não consigo ver as cores

Tantos anos,

E, ainda, não consigo ver além das sombras

Só vejo as faces do medo

Só vejo as fases do medo

E(sobre)vivo usando disfarces

Despedindo-me do passado.


Rosana Banharoli

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Drops Cultural da Banharoli

É com bastante tristeza que me despeço do blog  ContemporArtes, das colunas Drops Cultural da Banharoli, Segundas Poéticas e Bar ContemporArtes e da Revista de Artes e Humanidades Contemporâneos. Relutei muito e, confesso que tentei conciliar meu atual momento pessoal com o trabalho e lazer. Não deu. Agradeço imensamente a colaboração de todos vocês leitores, colaboradores e difusores - meus novos-velhos amigos. Peço que continuem a prestigiar este trabalho de voluntários que  esmeram-se  em trazer o melhor  das artes contemporâneas com responsabilidade, atualizando o blog diariamente.  Equipe que doa tempo e talento com alegria e satisfação porque acredita num mundo melhor, num mundo cidadão capaz de salvar e ser salvo pela Educação e Cultura.Obrigada, sempre!


A Prefeitura de Santo André(SP), comunica através da sua Agenda Cultural de Fevereiro que além dos desfiles e bailes de Carnaval pertinentes e tradicionais neste mês, as Escolas Livres, EMIA e Bibliotecas estão com inscrições abertas para cursos de formação artístico-cultural gratuitos. Vale conferir. http://www.santoandre.sp.gov.br/

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Ecritos Contemporênos - O teatro de Almeida Garrett


Caríssimos leitores, hoje saberemos um pouco mais acerca de João Baptista da Silva Leitão de Almeida, que mais tarde se tornou o conhecido visconde Almeida Garrett. Este foi um dos mais importantes escritores e ainda mais importante dramaturgo português na época em que estava em voga o Romantismo europeu.

Grande impulsionador do teatro em Portugal, uma das maiores figuras do romantismo em terras lusitanas, foi ele quem propôs a edificação do Teatro Nacional de D. Maria II e a criação do Conservatório de Arte Dramática.

Em relação a escrita teatral portuguesa, consta que após António José da Silva (O judeu), no século XVIII, Portugal experenciou uma lacuna na produção teatral, não houve nenhuma peça ou autor expressivos que surgiram no meio tempo até a inicialização de Almeida Garrett.

Garrett iniciou a escrever peças teatrais e depois reestruturou o teatro luso, principalmente, porque havia uma necessidade em Portugal de se transformar a sociedade, de reeducá-la, pois devido aos conflitos entre D. Pedro IV (o D. Pedro I do Brasil) e D. Miguel seu irmão o país ficara desestruturado, sem condições de oferecer educação à sua população.

Para atingir seus objetivos no que diz respeito à educação dos portugueses, o autor buscou as fontes clássicas Gregas, nas quais o teatro era utilizado como meio educador da população. Dessa forma, ao observar como eram educados os gregos na antiguidade (através do teatro) e que esse tipo de educação era extremamente eficaz, Garret resolveu adotar tal sistema também em Portugal.

Se o teatro grego possuía uma ótica educativa, através do qual o ser humano seria educado para viver na polis, em Portugal o teatro seguiu a mesma linha de pensamento, buscando ensinar as pessoas, para que pudessem entre outras coisas ter educação cultural e amor à pátria. Neste ponto é visível o principio Horaciano de que a literatura deve deleitar e também educar.

O romantismo garrettiano foi construtivista e muito mais Iluminista, com um empenho e consciência de que a literatura deveria ser propedêutica. Para produção de suas peças a História da pátria foi indispensável, na medida em que para ele a valorização do passado através do teatro traria a percepção de que em algum momento, sobretudo de formação nacional, no passado seria possível empreender um resgate ficcional que contrastasse com o mundo contemporâneo e mostrasse que aqueles eram bons tempos que deveriam retornar – em relação aos valores humanos. Ele retomou na História o espírito educativo do teatro, predispondo sua produção a continuar o principio de que o texto literário tem lições válidas a todos.

O objetivo maior seria de que a lição do passado se fizesse também no presente, levando em consideração que o que passou é marcado por valores de integridade que o contemporâneo desconhece ou então vê com saudosismo. Buscou-se, principalmente, resgatar a nacionalidade suspensa ou mesmo perdida da população lusitana.

A peça teatral garrettiana de maior destaque foi e é o Frei Luís de Souza, porque além de obra multifacetada, susceptível, por isso de desencadear diversificadas interpretações, surge também em uma época na qual acontecia uma reflexão sobre a produção literária no país, interessada, principalmente, na questão dos marginais e na função social – catequética – do teatro. Por isso, nesta obra, o autor tentou incluir uma lição cívica: “o sentimento da independência, que a intervenção antidemocrática de Ingleses e Espanhóis na vida política portuguesa fazia vibrar agudamente”. (SARAIVA & LOPES, 2005, P.688)





Rodrigo Machado é Graduando em Letras pela Universidade Federal de Viçosa e escreve aos sábados no ComtemporARTES.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Coluna As Horas - Cora Coralina


Salve Contemporâneos!

 Domingo (31/01) Museu da Língua Portuguesa, ver a exposição sobre Cora Coralina, que tem fim neste domingo (07/02) poetiza goiana, e confesso esperava um pouco mais, Cora merecia um pouco mais. A homenagem ficou restrita a um canto do museu, no segundo andar, com painéis repletos de fotos, algumas de Cora, e muitas mais de seu universo.

 

 Ao centro ficam cercados por sua poesia bordada em tecido cru encontram-se protegidos seus manuscritos, em cadernos,

folhas e um bilhete enviado por Carlos Drummond de Andrade. Tentei ler, mas a letra do poeta mineiro não contribuiu...desculpa Drummond, mas não deu pra entender muito  bem...
Simples e direta como Cora Coralina a exposição é um  boa pedida para admiradores e também para quem precisa conhecer sua poesia, onde docura, cotidiano e pureza se fundem..
 O Museu também conta com grande recurso multimídia, por onde podemos descobrir o siginificado e origem das palavras. Há também um auditório onde é exibido um filme com a história da língua portugesa, narrada por Fernanda Montenegro, logo após a exibição o público é conduzido a um outro espaço destinada a audição de poesia, dos grandes poetas, nas vozes de grandes artistas da música como Maria Bethânia, Chico Burque e atores como Juca de Oliveira. Como complemento  imagens são  projtetas nas paredes e teto, envolvendo completamente os ouvintes no reino da poesia.

Para informações: Museu da Língua Portuguesa
                            Associação Casa de Cora Coralina
                             

Giliane S. de Moura escreve semanalmente no ContemporARTES









quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Coluna Um salto para o futuro de hoje - Aquele que “respirava pintura e exalava literalmente pintura”


Jorge Guinle
Dispnéia Parafernálica , 1981
óleo sobre tela
152 x 180 cm
Uma arte solar foi a que tivemos oportunidade de ver em outubro de 2009 no MAM-Rio, após ter passado por São Paulo e Porto Alegre. Uma “pintura do sim”, como bem sintetiza o crítico de arte Ronaldo Brito, um dos curadores da mostra e amigo de Jorge Guinle Filho -  um dos maiores pintores brasileiros, que já há tempos merecia uma retrospectiva como aquela.
Guinle nasce em Nova York e passa grande parte de sua vida entre essa cidade e Paris, onde efetivamente convive com as grandes pinturas modernas. Matisse, Picasso e Miró, além da action-painting dos norte-americanos  De Kooning, Pollock, ou a Pop Art de Johns e Warhol são decisivos para sua formação, deixando traços em sua pintura, atividade à qual retorna quando se estabelece no Brasil no fim dos anos 70. Nos anos seguintes o artista participa de várias exposições nacionais, entre elas a mostra Como Vai Você, Geração 80?, realizada na Escola de Artes Visuais do Parque Lage - EAV/Parque Lage, Rio de Janeiro, em 1984, tornando-se uma espécie de símbolo da chamada Geração 80 – grupo de jovens artistas que se volta para o “prazer de pintar” num país que começa a vivenciar um clima de abertura política.
 Após a produção experimental/conceitual dos anos 60 e 70, o fenômeno do retorno à pintura ganha alcance internacional. Jorge Guinle sempre pintou, mas só no início dos anos 80 ele encontra  ambiente propício para despontar. Vale lembrar que, representante por excelência da Geração 80, o pintor, no entanto, pertence por afinidade intelectual e artística a uma geração de raros pintores, como Waltércio Caldas, Tunga, Barrio, que já tinham se estabelecido na linha de frente da arte contemporânea brasileira. 
 Familiarizado com toda a arte moderna, Guinle era um artista que entendia de arte – o que era raro entre nós naqueles anos, quando tínhamos quase nenhum acesso a publicações estrangeiras. Colorista nato, exibe uma pintura na qual se pode detectar o reprocessamento do lirismo de Matisse (reparem na fluidez do desenho de Guinle, não teria imensa afinidade com a desenvoltura dos arabescos de Matisse?) ou da força de Picasso, da força de Pollock ou do ceticismo de Johns.

 
Matisse ilustração

Mas, afinal, em plenos anos 80, imerso em um sistema cultural totalmente codificado, mercantilizado, que poder de transformação ainda teria o gesto de pintar? O que fazer, quando tudo já parece ter sido feito? Num mundo da arte já desencantado, Jorge Guinle nos oferece contudo uma pintura enérgica. Em entrevista, comenta a ambição da pintura então realizada pelo Neo-Expressionismo Alemão, pela Transvanguarda italiana ou pelo norte-americano Phillip Guston:
    “A nova pintura é um movimento 'decadente e 'conservador' se aceitarmos os termos colocados pelos antepassados de tradição moderna. Os antepassados da pintura moderna queriam recriar o mundo, pintavam para recriar o mundo. Os novos pintores já partem do princípio de que não vão poder recriar o mundo, e não querem isso. Os seus trabalhos explicitam a apropriação de todo um banco de ideias e tradições já usados; fazem uma mixagem disso e lançam as obras no espaço cultural”.


Guston, Philip
Entrance
1979
Oil on canvas
175.3 x 236.2 cm
Collection of Agnes Gund

Grosso modo podemos resumir. A arte no Renascimento se fundamenta na crença da existência de uma realidade com leis próprias – a natureza –, distinta das realidades divina e humana. E acredita em sua capacidade de representar este mundo empregando alguns princípios racionais, como os artifícios da perspectiva e do claro-escuro. Testemunhamos então uma harmonia entre a base material e o campo simbólico, colocada em xeque no século 19, quando  transformações econômicas e diversos conflitos sociais eclodem pela Europa evidenciando contradições que atingem a arte numa seqüência de movimentos a confrontar o sistema plástico dominante. Uma sucessão destes movimentos culminará com a ruptura proposta pelo sistema pictórico de Cézanne, que determina corte com o espaço renascentista. Cézanne incide sobre o seu alicerce básico, que é o compromisso com a representatividade. Nesse sentido, a chamada crise de representação pode ser entendida na pintura daquele para quem o problema da articulação do campo visual se imbrica com a consciência: perceber não se distingue de ser percebido. Não existe um real fora da consciência/sensibilidade do pintor.
Estamos bem distantes do equilíbrio entre base material e campo simbólico renascentista. A arte há muito não mais serve à Igreja ou ao Poder; perde definitivamente seu lugar social. O artista moderno é aquele que constrói seu lugar no mundo. Se na primeira metade do século 20 as vanguardas construtivas européias vão buscar a integração e a participação da arte no mundo moderno, na segunda metade, os expressionistas abstratos norte-americanos sabem que a arte não pode existir como parte integrante daquele mundo. Mas acreditam na possibilidade de existência individual, “ao menos numa tela”, e assim mantêm uma crença radical na absorção total no Ser da pintura. Já os pintores dos anos 80 sabem dessa impossibilidade. A pincelada traduz um individualismo postiço, na medida em que a lógica da imagem contradiz o falso 'furor' do processo.

 
Jorge Guinle
Summer Interlude , 1986
óleo sobre tela
155 x 275 cm
Coleção Eduardo Guinle

Como no trabalho dos neo-expressionistas alemães e italianos, Guinle opta pelo uso de matérias tradicionais, tela e tinta a óleo, e também escolhe um estilo já dado e digerido, “numa heterogeneidade que negaria a unicidade de pensamento que cria o sublime homogêneo”. Ao contrário deles, porém, não trabalha determinadas imagens – cuja função é reduzida a zero -, apresenta sim uma “iconografia abstrata”.  “Uma iconografia da história da arte, observa Guinle, “e não uma iconografia identificada (...) por motivos emocionais, estéticos, se encontra uma mescla do Abstrato-Expressionismo gestual, de Kooning e do Matisse, até um Surrealismo automatista. Mas cada apropriação de um estilo, de um pensamento inicial, é desviada do propósito inicial da escola escolhida justamente pela inclusão de uma outra escola que seria sua negação. Por exemplo, o lado decorativo, joie-de-vivre matissiano das cores, seria negado pela construção ritmicamente exacerbada do Abstrato-Expressionismo. Por outro lado, a tragédia desta mesma pincelada abstracionista é negada pelo otimismo da cor e pela ambigüidade cômica da operação. A possibilidade e o prazer de sempre alargar e nutrir essas contradições formam a base da minha práxis artística. O sublime poderia justamente surgir nessa crítica do sublime já embalsamado e obsoleto, nesta fronteira exígua, onde ele nasce e desaparece”.
Somente com essas ambigüidades ele pode fazer existir a arte no mundo contemporâneo. Distante de qualquer vago desejo de mudar o mundo, trata-se antes do próprio estar no mundo. Vivenciando o desencanto da recuperação institucional da arte moderna, e consciente do destino trágico reservado às suas utopias, Guinle mantinha “diálogo alegre, furioso e reflexivo, com telas que ele ficava girando e girando, no chão, como se procurasse desenquadrá-las, atravessar os seus limites para torná-las coisas vivas e autônomas” (Ronaldo Brito)). A sua pintura dizia sim, sempre, bem reconhece Brito, para que os “impasses, as angústias, pessoais e históricas, eram repotencializadas pelo próprio ato enérgico e irresistível da pintura”.

 
(take_cinema
Jorge Guinle
Take Cinematográfico , 1983
óleo sobre tela
160 x 180 cm
Coleção João Sattamini
tográfico)






 Fernanda Lopes Torres, historiadora da arte, graduada pela ESDI (Escola Superior de Desenho Industrial) da UERJ, mestre e doutora em História pela PUC-Rio, pesquisadora de arte da Multirio (Empresa Municipal de Multimeios) escreve às quintas-feiras quinzenalmente no ContemporARTES.